quinta-feira, 7 de abril de 2016

"Simplesmente um ser humano", por Carmem Toledo.

"Simplesmente um ser humano"
por Carmem Toledo.



Todos os meus antepassados (por parte de meu pai e de minha mãe), até onde se sabe, nasceram no sul da Espanha. Sua chegada em terras brasileiras é relativamente recente; faz pouco mais de cem anos que meus bisavós aportaram no Brasil - o que, em um livro de História, representaria, no máximo, um capítulo ou algumas páginas. Como era comum nas primeiras décadas do século XX, eles chegaram e foram para o interior de São Paulo, somente depois vindo à capital, que, posso afirmar, ajudaram a "construir" e caracterizar para que ela se tornasse (com a ajuda de outros imigrantes e migrantes que vieram anos depois) o que conhecemos agora.


Quando nasci, na metade dos anos 80, São Paulo já não era mais a "Terra da Garoa", nem se podia mais brincar nas ruas ou nadar no Rio Tietê... Não conheci aquela cidade promissora e romântica, onde os vizinhos conversavam, sentados em cadeiras na calçada... Mas tive o privilégio de ouvir as histórias daqueles que a conheceram. Cresci entre as confusões idiomáticas de um espanhol atropelado pela pronúncia andaluz misturado ao português que permaneceram por um bom tempo em minha mente, mesmo depois de minha bisavó Ana (que vivia conosco) falecer, quando eu tinha três anos de idade.

Mas, como toda história, vamos "começar pelo início":

Tudo começou quando Ana Fortes Díaz - filha de María García Díaz, uma calé (cigana da Península Ibérica) casada com um gachó (homem que não é cigano) chamado José Fortes -, nasceu no povoado de La Carolina (província de Jaén). Na juventude, conheceu o andaluz nascido em Viator, Almería, José Gongora Cesar - filho de Trinidad Cesar Rodrigues e José Gongora Torres. Apaixonaram-se, casaram-se e vieram para o Brasil, trazendo o primeiro filho, José Gongora, que tinha apenas alguns meses.

Eles vieram para o interior de São Paulo, não somente em busca de uma vida melhor, mas principalmente, porque a família de Ana era contra o casamento. O irmão de José, Juan Gongora, também veio pouco tempo depois, instalando-se no Paraná - em Londrina ou Curitiba - porém, nunca mais deu notícias. Ana, de tanto chorar a cada carta das irmãs que ficaram em Andaluzia, fez com que José tomasse uma atitude difícil: a de não mais entregar-lhe as epístolas. E foi assim que Ana perdeu todo o contato com sua família.

Vieram os outros filhos. Depois de José (nascido em Andaluzia), nasceram os primeiros brasileiros: Maria, Trindade (que deveria ter sido registrada como Trinidad), Antonio, Carmem (registrada no Brasil, erroneamente, com "m", já que "Carmen" é uma palavra latina que significa "poema") e Manuel (que faleceu ainda bebê).

Carmem Gongora era a caçula, nascida na cidade de Tapiratiba, interior de São Paulo.
Aos 12 anos, conheceu Luiz Antiquera Rodrigues, um jovem de 17 anos que vivia na fazenda vizinha, nascido em São José do Rio Pardo, em São Paulo. Seus pais, Francisca Lopes e Juan Antiquera Rodrigues (vindo a se tornar "João" nos documentos, além de receber o sobrenome "Rodrigues" de seu patrão, ao embarcar no navio que o trouxe), também eram andaluzes, mas de Granada. Luiz, como Carmem, também era o caçula de muitos irmãos: Francisco, María del Carmen, Izabel, João Francisco, Antonio e Rosaria Mathildes. Alguns anos depois, Carmem e Luiz se casaram e tiveram dois filhos: Irene e Luiz.

Enquanto isso, casavam-se Eulália e João, cujos pais também vieram da Espanha. Os pais de João eram Israel de Toledo, um judeu espanhol nascido na região de Andaluzia, e Hermínia Ávila de Vera, uma morena de olhos amendoados nascida em Santa Cruz de Tenerife, Ilhas Canárias, filha do ex-seminarista Jerónimo Ávila e de Rosalia de Vera (ambos andaluzes). Os pais de Eulália eram Bartolomeu Serrano Lopez - nascido em Murcia - e María Josefa Martinez Hernández - nascida na região de Andaluzia. Eulália tem um irmão chamado Cristóvão; João tinha três irmãos: Carmen, Clara e Antonio.

Eulália e João tiveram sete filhos: Edson, Izidro, Maria da Penha de Jesus, Irineu, Magali, Marcia e Elaine.
Edson de Toledo, o mais velho, casou-se com Irene Gongora Rodrigues.
E eu nasci. Nasci Carmem, como minha avó materna e minha tia-avó paterna; Carolina, como o pequeno povoado de Jaén onde minha bisavó Ana nasceu; Rodrigues, como o sobrenome "emprestado" de meu bisavô Juan; Toledo, como o sobrenome de meu bisavô Israel: Carmem Carolina Rodrigues de Toledo.

Cresci em uma cidade cosmopolita, cuja identidade é algo difícil de se descrever, já que absorve as diferentes culturas que chegam com as malas dos estrangeiros e brasileiros de outras regiões.
Um dia, já na universidade, conheci um rapaz nordestino, de Aracaju (Sergipe). Fazíamos parte de um grupo de estudos do Departamento de Filosofia e ele cursava o Mestrado. Também estávamos matriculados na mesma disciplina. No final das reuniões do grupo, conversávamos por horas... Dois anos depois, o amor falou mais alto que a timidez... E já caminhamos para cinco anos de namoro. Ele, descendente de portugueses, holandeses, índios e, talvez, espanhóis. Eu, descendente de espanhóis (incluindo ciganos e judeus sefarditas).

Todos os povos do mundo nasceram de muitos outros grupos de seres humanos, oriundos de diversos lugares. O mesmo aconteceu com aqueles que aqui chegaram - e há teorias de que os índios encontrados nas Américas vieram do continente asiático. Somos uma bela e enorme mistura de pessoas que apenas buscavam uma vida melhor, aventurando-se pelo mundo sem apego a nada.

A história de cada um - assim como a História, com letra maiúscula - se escreve com idas e vindas, caminhadas por terras distantes, descobertas e lutas. Nasci em São Paulo porque meus bisavós vieram para cá; seus pais (meus trisavós) nasceram na Espanha porque alguém antes foi para lá, de algum outro lugar: Se uma de minhas trisavós, mãe de minha bisavó Ana, era cigana calé, isso significa que seus ancestrais mais distantes vieram, provavelmente, da Índia ou do Egito. Se um de meus bisavós paternos era judeu sefardita, isso nos faz crer que seus antepassados chegaram à Península Ibérica através das navegações fenícias. A Espanha foi dominada, durante muito tempo, por muçulmanos.

Sabendo de tudo isso, só posso afirmar que, antes de me dizer brasileira, com sangue espanhol, judeu ou cigano, sou cidadã do mundo. E o mesmo acontece com todos os outros habitantes do planeta Terra. Cada um de nós tem o direito de partir para outros caminhos e aportar em outras terras, como nossos antepassados fizeram um dia. Ignorância gera preconceito, que por sua vez alimenta toda espécie de desrespeito e assim, chegamos ao ponto em que estamos: guerras, terrorismo, todos querendo ter razão. Trata-se de um círculo vicioso comandado pelo orgulho da ignorância, ou, na linguagem popular, o famoso "não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe", produtor do ufanismo - que é um passo na direção do racismo, da xenofobia e de todas as outras manifestações de ódio ao diferente (incluindo a intolerância religiosa e a violência contra homossexuais e pessoas com deficiência). Esse tipo de orgulho também é responsável pelo conformismo em relação ao que realmente importa: o caráter, que é passado para trás - afinal, se tiro conclusões precipitadas sobre você e me orgulho de minha própria ignorância, não me importa saber se você é bom, honesto e sábio; tudo o que quero é ressaltar suas características superficiais para não dar meu braço a torcer e confirmar "o que eu já sabia". Ora, se não valorizo o caráter e só dou atenção ao supérfluo, pouco me importa se a educação que recebo e que meus filhos receberão é de qualidade, se respeito o espaço alheio, se o meu bem estar (muitas vezes, momentâneo) não causa mal estar no meu vizinho, se sou ético no dia-a-dia.

Precisamos nos olhar no espelho e enxergar ali um ser humano, um animal racional exatamente igual aos outros. Se somos brasileiros, argentinos, africanos, suecos, japoneses, paulistas, baianos, cariocas, católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, espíritas, umbandistas, ateus... não importa: é supérfluo. Usemos isso apenas como uma fonte cultural, para aumentarmos nosso conhecimento e aprendermos outras realidades, respeitando-as e percebendo que não somos a referência absoluta da humanidade (pois viver fechado sempre no mesmo mundinho e atacando o do outro é muito cômodo, mas também muito pobre).

Carmem Toledo
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