segunda-feira, 6 de abril de 2015

"O dia em que conheci Maria Lídia", por Carmem Toledo


por Carmem Toledo

[texto originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (15/06/2013).]





"O balão vai subindo, vem caindo a garoa.

O céu é tão lindo e a noite é tão boa.
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração.

Sonho de papel a girar na escuridão
soltei em seu louvor no sonho multicor.
Oh! Meu São João.

Meu balão azul foi subindo devagar
O vento que soprou meu sonho carregou.
Nem vai mais voltar. "

("Sonho de Papel", de Carlos Braga e Alberto Ribeiro)




Há dias que são, mesmo, especiais.
E eles se tornam ainda mais extraordinários quando sentimos que a magia nos toca.
Que magia é essa? Ela está por toda parte, especialmente, quando nos voltamos para algo que traz alegria - não para nós, egoisticamente, mas para outras pessoas.

Vejam a letra da canção citada acima: fala sobre sonhos que são levados, pelo vento, para o céu. 
Eu poderia analisar esta letra com os olhos da filósofa que sou e interpretá-la, dizendo que nossos desejos são conduzidos pela fortuna até sua realização, ou ainda, até Deus, para que Este, segundo Sua vontade, os realizasse ou não. Poderia ainda dançá-la, acompanhando, com meu corpo, sua melodia... Assim, ela seria "cantada" através dos movimentos.
Mas há momentos que nem mesmo filósofos, dançarinos, atores, todos juntos, poderiam expressar satisfatoriamente. 

Para essas ocasiões, creio que o melhor seria recorrer à sabedoria das crianças. Ninguém melhor do que elas para contar como é sentir uma alegria verdadeira, um sonho simples realizado... Um sorriso é o suficiente. Um sorriso dado com a verdade de quem possui a pureza de uma flor que, ainda que não seja notada pelos passos apressados dos transeuntes modernos, sempre está lá, dando o melhor de si. 
Sim: as flores sempre têm perfume para dar, ainda que não as notemos, por causa de nosso egoísmo. Se não o sentimos, somos nós que estamos perdendo, e não elas. As flores continuam sendo flores, independente de nosso interesse por elas. Mas nós deixamos de ganhar algo, quando não as notamos.

Hoje, conheci uma flor peculiar...
Uma flor pequenina, delicada, mas, ao mesmo tempo, alegre e cheia de energia!
Encontrei-a por acaso (será que o "acaso" existe mesmo?). Olhei para ela, sentindo, logo, seu perfume - mesmo que de longe. Em pouco tempo, a jardineira responsável veio até mim e começou a conversar sobre a alegria que aquela flor lhe proporcionava, desde que surgira, como uma simples sementinha...
Contou-me que, mesmo antes que aquela bela obra da natureza germinasse, já pressentira de qual espécime se tratava. Disse que tinha certeza de que não seria uma flor qualquer, mas uma flor que precisaria de um carinho todo especial, cheio de cuidados. Assim que o broto apareceu, a jardineira confirmou o que já sabia: era mesmo, a flor especial! Os bons jardineiros são assim: antes mesmo que a planta cresça, já conhecem bem seus frutos.

E que satisfação, conhecer esta flor e sua jardineira!
O melhor foi conseguir sentir o perfume desta pequena flor que me foi apresentada!
Senti-me abençoada, contemplada!
Mas notei algo que não posso deixar de escrever aqui:
Disse, há algumas linhas, que as flores dão o seu perfume gratuitamente a quem prestar atenção nelas. No entanto, aqueles que as cultivam, regando-as e protegendo-as, adquirem seu perfume e passam, também, a exalá-lo.
O nome da flor? Claro que não me esqueci! É Maria Lídia. Sua jardineira chama-se Rosi.

Foto de Maria Lídia. Ela é bem pequena (aparenta dois ou três anos de idade), tem a pele morena clara, usa franja e está vestida de noivinha para a quadrilha da Festa Junina da APAE. Seu vestidinho é branco com laços cor de rosa na saia e no peito. Ela tem um véu na parte de trás da cabeça e uma fita rosa presa a uma tiara. Maria Lídia tem Síndrome de Down.

Conheci ambas em um lindo jardim em que muitas flores e seus respectivos jardineiros brincavam em uma festa popular que acontece no mês de junho... 
E foi assim que São João acendeu a fogueira no meu coração.

Havia muitos anos que tentava ir a uma Festa Junina da APAE-SP, mas sempre perdia a data... Este ano, consegui participar e fui presenteada, conhecendo essas pessoas maravilhosas, cheias de força e alegria de viver! Bebês, crianças, jovens, idosos... Todos com o mesmo objetivo: brincar, ajudar, dançar... e VIVER!

Nesta foto, vemos um alegre desfile dos atendidos pela APAE de São Paulo. À frente, uma moça negra com Síndrome de Down traz uma bandeira grande, onde se lê "Bloco do Sossego". Ela está com os cabelos presos em um coque e usa camiseta rosa e um vestido cor de creme com fitas xadrez. Atrás dela, caminham outros atendidos. Uns usam máscaras coloridas representando corujas e outros levam corujas que parecem ser feitas de isopor e cartolina coloridos.

Quando todos se unem por uma mesma causa, as diferenças se tornam apenas um adicional ao que cada um tem a oferecer. Sim, somos diferentes... E que bom que é assim! Este é o maior sinal de perfeição da natureza: cada um ter sua história, escrita com sua própria letra. Mas, quando nos damos as mãos, somos apenas seres humanos.
Usando as festividades juninas como exemplo, basta que olhemos para nossas sombras através da "fogueira de São João": sombras são todas iguais; não têm idade, nem raça, nem deficiência... Têm apenas movimentos próprios, criados pelos corpos que as produzem. E é isso que as torna especiais.

Termino meu texto por aqui, com uma canção que me veio à mente, enquanto escrevia.
Deixo um beijo e um sorriso para Maria Lídia e sua forte jardineira.
Para a APAE-SP, afirmo que já me considero uma "amiga coruja"!

E já adianto que não perderei mais nenhuma Festa Junina da APAE-SP! Afinal, não posso mais perder os perfumes das flores!


 



Texto originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (15/06/2013).






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