segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Reflexões sobre a ideia de 'Normalidade', de um ponto de vista filosófico", por Carmem Toledo

"Reflexões sobre a ideia de 'Normalidade', de um ponto de vista filosófico"
por Carmem Toledo

[artigo originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (02/04/2008)].


A palavra "Normal" pode originar mais discussões do que podemos imaginar, apesar de ser utilizada, muito frequentemente, por pessoas dos mais variados níveis e origens.
Porém, teríamos nós consciência do que ela realmente significa? Quais são os critérios para que se afirme que alguém ou algo é normal ou anormal?
Vejamos em que ocasiões este vocábulo é usado.


Não é difícil escutarmos frases como "Esta atitude é normal nesta idade", "É normal que isto ocorra entre crianças", "Joãozinho nasceu perfeito: ele é normal", "Uma pessoa normal não faria isso", entre muitas outras que proferimos sem nem mesmo nos darmos conta do que estamos dizendo.
Quando afirmamos que "Joãozinho é normal", o que fazemos é uma comparação entre Joãozinho e outras crianças, que possuem atitudes e características semelhantes. Aqueles que não possuem qualidades correspondentes são ditos diferentes e, portanto, não são normais, segundo os critérios estabelecidos.

Assim, é comum ouvir-se dizer "Pedrinho é autista, mas seu irmão, Joãozinho, é normal", tendo-se em conta que o critério de normalidade, neste caso, é o desenvolvimento intelectual posto em comparação entre as duas crianças.
Isto faz com que sejam considerados normais todos os indivíduos que possuem o mesmo desenvolvimento aparente em relação à idade que possuem e contexto em que vivem. Igualmente, todos aqueles que possuírem características físicas diferentes da maioria, responderem de maneira diferente aos estímulos externos, ou possuírem habilidades menores - e, em certos casos, maiores - que o grupo a que pertencem, são estigmatizados como problemáticos, diferentes, anormais.
Assim, nasce a noção de Normal, conforme é tida pela sociedade.

O filósofo Baruch de Espinosa, no Apêndice à Ética I, escreveu algo que convém citarmos aqui:
"Depois de se terem persuadido de que tudo o que acontece acontece em vista deles, os homens foram levados a julgar que o principal, fosse no que fosse, é o que têm por mais útil e a darem apreço como mais prestante ao que mais agradavelmente os afetasse. Daí o serem obrigados a formar noções com que explicassem a natureza das coisas, tais como Bem, Mal, Ordem, Confusão, Quente, Frio, Beleza e Lealdade; e porque se reputam livres, isso deu origem a noções tais como Louvor e Vitupério, Pecado e Mérito.
(...) É que quem não conhece a natureza das coisas nada pode afirmar a respeito delas e somente as imagina e toma a imaginação pelo entendimento, e por isso acredita firmemente que existe Ordem nas coisas, ignorante como é da natureza dos seres e da de si mesmo.
(...) E como as coisas que facilmente podem ser imaginadas são mais agradáveis do que as outras, os homens preferem a ordem à confusão, como se a ordem, salvo em relação à nossa imaginação, fosse algo existente na Natureza"
(Espinosa, Apêndice à Ética I, p. 127)

Espinosa criticava os valores, que nada mais são que critérios de julgamento. A partir dos valores, a maioria das pessoas julga o que é "Bem" e o que é "Mal".
Porém, segundo Espinosa, as coisas não são boas ou más em si, pois "Bem" e "Mal" são entes de imaginação, não existindo na realidade.¹
Sendo assim, as coisas são o que são. O mesmo ocorre com todos os outros valores: "Normal" é um deles.

De acordo com Espinosa, a Ética deve ser tomada como uma forma de conhecimento que exige a investigação da natureza, visando à compreensão dos atos humanos e das várias formas de existência dos homens, que são singulares e, portanto, não podem ser comparados a modelos pré-concebidos.²
Os estigmas nascidos a partir dos critérios de normalidade são, na realidade, consequências de um trabalho Moral, em que o que é exigido é algo universal, ideal, ou seja, um dever-ser. A ideia de Humanidade se encaixa aqui.
Porém, segundo a Ética Espinosana, o que deve ser levado em consideração é a singularidade, cada homem em particular e suas atitudes, que se devem ao desdobramento de sua essência. Isso faz com que ninguém possa ser submetido ao julgamento embasado em um ideal.

Agora, voltemos a nosso exemplo, dado no início deste artigo.

Se alguém afirma que uma pessoa é normal e outra não o é, o que está sendo feito?
Em relação às pessoas com deficiências físicas e intelectuais, um julgamento fundado em ideais que interessam à sociedade: produção, lucro, vaidade, etc.
Quando o alvo não é a deficiência, mas qualquer comportamento que não seja comum aos demais do mesmo grupo, como uma criança ou jovem que não segue os padrões comportamentais e intelectuais de sua idade, por exemplo, o que se tem em vista são os padrões de consumo e o perigo da existência de questionamentos políticos ou sociais futuros, afinal, quando se tem uma média, é mais fácil deduzir seus pensamentos e atitudes e, assim, controlá-la de várias maneiras (lembrem-se do "Discurso da Servidão Voluntária" , de La Boétie, em que podemos ler que os tiranos dominam através da ignorância do vulgo).

Finalmente, após essas reflexões, podemos perguntar novamente:
O que é normal?
Quais são nossos critérios para decidir suas definições?
Somos justos, quando afirmamos que alguém não é normal?

Cabe a cada um refletir e decidir se possui ideias próprias ou impostas pela sociedade. Afinal, somos singulares, e não cópias de um mesmo modelo.

Por isso, imitando Espinosa, o que devemos fazer é
"(...) não ridicularizar as ações dos homens, não as lamentar, não as detestar, mas adquirir delas verdadeiro conhecimento" (Espinosa, Tratado Político, I, §4, p. 314)

Nota: Espinosa foi perseguido não somente pelas autoridades político-religiosas, mas também pelos próprios filósofos de seu tempo, como Leibniz e Malebranche. E permaneceu sendo perseguido, mesmo depois de morto.

Carmem Toledo.
Twitter: @poema_gitano
facebook.com/culturofagia



Notas:

¹ Quando o filósofo fala sobre “Ordem”, refere-se à ordenação afirmada por Descartes, que acreditava que tudo possuía ordenação geométrica.
² Quando se realiza esta investigação, deve-se partir da totalidade das coisas, que é um antídoto contra o preconceito.


Bibliografia:

1. ESPINOSA, Baruch de. Ética I, Trad. de Joaquim de Carvalho in Os Pensadores, São Paulo, Abril, 1973

2. ___________________. Tratado Político, Trad. de Manuel de Castro in Os Pensadores, São Paulo, Abril, 1973





Carmem Toledo.

Artigo originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (02/04/2008).


Autoria

"Super Specialis" (superspecialis.blogspot.com) é de autoria de Carmem Toledo. Está proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui publicado, inclusive dos disponibilizados através de links aqui presentes. A mesma observação se estende a todos os blogs e páginas da autora ("Culturofagia", "O Caminhante Solitário", "Sophia... Ieri, Oggi, Domani", "A. B. A. C. A. T") e toda e qualquer criação, seja em forma de texto ou ilustração, por ela assinada.

Aviso:

Antes que esta página fosse criada, houve muita leitura sobre os temas abordados. Em caso de dúvidas, acesse todas as seções do blog e leia com atenção (sobretudo as guias "Sobre", "Quem somos" e "Indicações bibliográficas").

Não copie e cole o conteúdo aqui presente em qualquer outro lugar, pois ele foi escrito com muita pesquisa e dedicação. Lutar por respeito à diversidade e à inclusão também é lutar pela ética e quem se apropria do trabalho alheio não está preocupado com nada disso. Se você quiser compartilhar, copie o link para as postagens, e não seu texto.

Se você tiver alguma dúvida específica sobre seu filho, neto, sobrinho ou aluno, procure um profissional especializado que corresponda melhor à sua situação. Não use a internet para procurar ou perguntar sobre medicamentos e tratamentos, pois isso pode lhe causar um grande transtorno.