segunda-feira, 6 de abril de 2015

"O que é normal?", por Carmem Toledo

"O que é normal?"
por Carmem Toledo.

[texto originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (29/01/2008)].


O problema da acessibilidade não afeta somente os deficientes, mas todos nós. Quem nunca se viu ao lado de amigos ou colegas que foram impedidos de cursar uma disciplina, um curso, ou tiveram seu direito de ir e vir prejudicado, um dia, mais cedo ou mais tarde, terá de enfrentar esta situação.
Em maio do ano passado, em uma das aulas de italiano, meus colegas e eu pudemos ver uma de nossas colegas, uma senhora de idade com dificuldades de locomoção, voltar para casa após ser impedida de entrar no prédio de Letras da USP por não poder descer as escadas. Havia uma porta por onde ela sempre entrava, situada no piso térreo, mas, naquele dia, a "única pessoa" (?) que tinha a chave havia ido almoçar. Além disso, os elevadores deste prédio não são nada confiáveis - uma mestranda informou-me que um deles já despencou com três garotas dentro.
Chateada com o ocorrido, enviei um e-mail ao Governo do Estado de São Paulo, ao Departamento de Letras Modernas da USP, à Ouvidoria da USP, à Rede SACI, ao gabinete da reitora, ao "Fale USP"...
Reproduzo abaixo meu e-mail e algumas respostas.


Meu e-mail, em 20/Maio/2007:

"Sou aluna do quarto ano de Filosofia da USP e gostaria de pedir que vocês colocassem em pauta a questão da infraestrutura para deficientes na USP, pois já presenciei várias situações constrangedoras ocorridas com alguns colegas. Inclusive, uma senhora com dificuldades de locomoção que cursa italiano comigo no Italiano no Campus (Letras-Curso de Extensão), certa vez não pôde entrar no prédio e teve de voltar para casa, pois a única pessoa que possuía a chave da porta do térreo estava almoçando. Já enviei e-mail com reclamações para o Governo do Estado, para a FFLCH e para a USP (para vários setores), para a Rede SACI, para a ADUSP (para que colocassem em pauta) e para vários professores, para que todos se conscientizem e se unam para fazer algo por nossos colegas.
Agradeço pela oportunidade de expressão.

Carmem Carolina Rodrigues de Toledo"




Algumas respostas foram as seguintes:

DLM, em 21/Maio/2007:
Disse que compartilha de minhas preocupações com a inadequação dos prédios, com relação aos portadores de necessidades especiais e que ela decorre, essencialmente, do fato de eles terem sido construídos numa época em que não havia a atual preocupação com essas pessoas, o que, segundo ele, não isenta, evidentemente, a administração da universidade de sua responsabilidade com relação a esse problema. Afirmou que isso faz parte de um conjunto de carências dos prédios (segundo ele, insuficientes, inadequados e inseguros). Adiantou que, em uma das reuniões do Conselho Técnico Administrativo - CTA, da FFLCH, o Presidente da Comissão de Graduação informou que esta havia sido escolhida pela administração central da USP para um teste sobre o uso do espaço por portadores de necessidades especiais. Disse que esperava que isso abrisse espaço para que fossem executadas as reformas necessárias nos prédios, embora todos saibamos da lentidão que costuma pautar as soluções nesse campo.
Enviou uma cópia da mensagem ao Diretor de nossa Faculdade, Prof. Dr. Gabriel Cohn.

"Fale USP", em 21/Maio/2007:
Sugeriram que eu entrasse em contato com a Ouvidoria da USP, reportando o ocorrido para que tais informações pudessem ser apuradas.

Ouvidoria da USP, em 22/Maio/2007:
Responderam-me que a questão da acessibilidade física para vários tipos de deficiências é uma questão que tem preocupado muito à OUVIDORIA GERAL da USP e que tem sido feitas várias coisas nesse sentido. Disseram que aguardariam o término da greve de então, com tomada da reitoria pelos estudantes, para conversarmos a respeito do assunto.

Rede SACI, em 25/Junho/2007:
Por conta de reestruturações no programa USP Legal decorrentes da extinção da CECAE - Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais, a equipe responsável pela acessibilidade física no campus foi transferida para a COESF (Coordenadoria de Espaço Físico), enquanto que a parte pedagógica foi transferida para a PRCEU (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão). Por fim, disseram que
este seria um caso a ser tratado pela equipe da COESF, por se tratar de acessibilidade física; encaminhariam minha mensagem para os responsáveis e entrariam em contato assim que tivessem resposta por parte deles.

Governo do Estado de São Paulo:
Sem resposta.


Pois bem: atualmente, estão sendo feitas reformas importantes na FFLCH (abaixo, ver link 2), graças a inúmeras reclamações que, provavelmente, receberam, por parte dos alunos deficientes e testemunhas da falta de respeito.
Mas o problema se estende por toda a USP e também por toda a cidade de São Paulo: uma professora da ECA informou-me que o elevador que existe no prédio central desta unidade somente foi construído após uma mãe de aluno entrar na justiça, depois de seu filho - cadeirante - ser impedido de cursar uma disciplina (abaixo, ver link 3).
Eu mesma já presenciei, diversas vezes, cadeirantes tendo de esperar, durante horas, ônibus adaptados no Terminal Parque D. Pedro - e, o pior, na fila de uma linha que passa pelo HC, o Butantã-USP. Sem contar as demonstrações de preconceito por parte de alguns funcionários da SOCICAM diante de crianças com Síndrome de Down.

Em geral, percebe-se que os deficientes são evitados frequentemente. Este é um claro sinal da incapacidade e da ignorância existentes por parte da maioria das pessoas. Felizmente, este quadro vem mudando com o tempo, mas ainda há quem acredite que deficiência é sinônimo de problema.
Em parte, isto se dá pelo desconhecimento sobre como lidar com isso: trata-se de despreparo, o que pode ser atribuído a lacunas graves na educação - não somente naquela que se recebe em família, mas também no sistema de ensino (público e particular), que deixa muito a desejar. E há também aqueles que discriminam por medo de mostrar a própria incapacidade em compreender o outro, ou até mesmo por receio de se apresentar com deficiências mais graves do que aqueles que tanto evitam, o que, de fato, ocorre: frequentemente, observamos pessoas deficientes mais inteligentes e que sabem utilizar melhor suas habilidades do que muitos que não possuem, aparentemente, nenhuma deficiência.
Não podemos nos esquecer que todos nós temos dificuldades para algumas atividades e facilidade para outras. Do mesmo modo, uma deficiência pode significar um talento a ser descoberto e incentivado - temos vários casos de pessoas que, ao se tornarem deficientes após alguma circunstância, descobrem habilidades até então ocultas. Temos inúmeros exemplos de deficientes que possuem um talento imensurável:

Andrea Boccelli - Cegueira, cantor; Antônio Francisco Lisboa ("Aleijadinho") - Doença degenerativa dos membros, escultor (maior expoente do estilo barroco mineiro); Ludwig van Beethoven - Surdez, compositor erudito (o maior e mais influente compositor do século XIX); Stephen Hawking - Esclerose lateral amiotrófica (doença que paralisa todos os músculos), um dos mais consagrados físicos teóricos do mundo; Zilda Iokoi - Deficiente física, historiadora da USP
A deficiência intelectual não é diferente: importantes exemplos disso são:
Breno Viola - Síndrome de Down, faixa preta de judô; Pablo Pineda - Síndrome de Down, psicopedagogo, além de muitos anônimos que são geniais em suas ocupações.

Em 2006, fiz uma visita à APAE de São Paulo, na Vila Clementino.
Logo na porta, já pude ver algumas crianças e jovens com Síndrome de Down que saíam ou chegavam para suas atividades. Próximo à catraca, um jovem chegava correndo, atrasado, com sua mochila. Cumprimentou o vigia e disse "Está frio!"
Lá dentro, mães com seus filhos, alguns bebês - poucos, pois fazia muito frio; a maioria, de origem humilde. Percebia-se que grande parte das que portavam bebês estavam ainda um pouco perdidas, não sabiam lidar com o fato de que seus filhos eram "especiais". O momento da notícia é delicado e muitos médicos não sabem lidar com este instante - creio que deveriam procurar outra profissão.
Visitando todas as áreas do local, orientada por uma voluntária, vi crianças em aula, muitos jovens trabalhando... e, sobretudo, boa-vontade: vontade de aprender, de ser alguém.

O que vi foram pessoas normais. Seres humanos que ultrapassavam qualquer "normal" em inteligência. Não creio que pessoas que se dizem "perfeitas", mas que fazem algo para se livrar da responsabilidade, que não dão tudo de si, sejam normais. "Normais" que se escondem atrás de justificativas tolas para não cumprir com seus deveres; que pegam um atalho, porque assim é mais fácil; que preferem permanecer na ignorância, pois, assim, têm menos responsabilidades? Não, isto não pode ser normal. Pode ser comum, mas não posso aceitar que seja normal.
"Normal" é tudo aquilo que segue normas, regras pré-estabelecidas. "Comum" é algo corriqueiro, que ocorre com frequência. Sendo assim, ser preguiçoso, não explorar todo o nosso potencial é algo comum, mas não normal. Normal é buscar sempre mais, ampliar os horizontes das faculdades mentais que nos são atribuídas como seres humanos. O Homem é um ser pensante; tem de evoluir sempre: isto é normal.

Pessoas com Síndrome de Down e com outras deficiências - cegos, surdos, cadeirantes... são NORMAIS.
Nós não passamos de seres COMUNS.
Os deficientes somos nós: deficientes de caráter, de vontade, de consciência.


Carmem Toledo.


Texto originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (29/01/2008).



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