segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Meus Colegas", por Carmem Toledo


por Carmem Toledo.

[texto originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (08/03/2013).]





Hoje, fui ao cinema.
O leitor deve estar pensando: "O que há de importante nisso?" e eu respondo: Há uma importância enorme, uma vez que constatei algumas coisas das quais desconfiava há um bom tempo... Peço àqueles que estejam interessados que tenham paciência e leiam até o fim.

Constatei que há muitos seres humanos e poucos Seres Humanos:
Os seres humanos conduzem suas vidas com base no que é aceitável pela maioria, querem sempre estar na moda e se incomodam com quem não segue os padrões reles que incentivam a mediocridade; os Seres Humanos procuram sempre o melhor, querem sempre aprender mais e vivem de acordo com o que é correto, sem relativizar as regras segundo os interesses majoritários e momentâneos.
Enquanto os seres humanos sentem raiva de quem aproveitou melhor as oportunidades que a vida lhe deu - e que dá a todos -, os Seres Humanos seguem buscando o que lhes falta.

Os seres humanos costumam criticar - de maneira pobre e repetitiva - quando se sentem atingidos pela capacidade de alguém em exercer alguma atividade - seja escrever, falar, dançar, cantar. Enquanto isso, os Seres Humanos aprendem com quem tem conhecimento e buscam a perfeição em tudo que fazem: se não compreendem uma palavra, procuram-na no dicionário; se não sabem escrever bem, ao menos entregam-se mais à leitura; se não sabem fazer cálculos, tentam aprimorar seu raciocínio lógico e se não sabem cantar, deliciam-se ouvindo uma boa voz a interpretar uma bela canção.

Os seres humanos pensam que humildade é não evoluir, é errar voluntariamente e criticar quem já aprendeu com os tombos da vida e não quer mais tropeçar em nenhuma pedra (visível) no caminho - ou mesmo quem não chegou a tropeçar, porque desviou das mesmas pedras. Os Seres Humanos sabem que a humildade é uma virtude que nos faz ver nossa inferioridade e nos dá forças e ferramentas para sairmos dela, admirando e não invejando quem possui qualidades que não temos. Eles sabem que as qualidades são acessíveis a todos.

Constatei que todos aqueles que se consideram "normais" são as pessoas mais ridículas que existem:
São aqueles que, quando se sentem atingidos pela boa conduta alheia ou ouvem verdades que não lhes convêm, atacam com picardia - ferramenta própria de quem não tem coragem e argumentos para dizer claramente que não concorda com alguém. São os que não enfrentam ninguém, mas se acham espertos por usarem a ironia. Sabem que estão errados, mas são como crianças que não querem ser castigadas (Não, ninguém as castiga... É a vida que lhes dá o que merecem).

Por outro lado, aqueles que são considerados "diferentes" não precisam de malícia, uma vez que têm a consciência tranquila e sabem o que e porque fazem e dizem algo. Aliás, sabem mais do que ninguém, pois a eles só interessa sua própria vida e não a de outrem. São os "diferentes" que partem em busca de seus objetivos, sem se preocuparem em derrubar quem está ao lado. São eles que apoiam quem sonha como eles, que aplaudem quem admiram, sem o orgulho do incapaz que evita assumir sua admiração por alguém. São eles que não têm pudor em dizer claramente o que pensam, pois não têm nada a esconder.

Constatei que todo aquele que se pensa "esperto" não passa de um verdadeiro idiota:
A esperteza não é uma qualidade, mas um grave defeito e um paliativo de quem não possui inteligência.
E como, quando somos levados a prestar mais atenção naqueles que costumam ser considerados "bobos", notamos que a verdadeira debilidade está nos "espertos"! Que espetáculo! Um festival de "normais" ridiculamente débeis, escondendo suas fraquezas atrás de padrões, futilidades, palavras com duplo sentido, provocaçõezinhas infantis...
Enquanto isso, os "bobos" correm atrás de seus sonhos e são verdadeiramente felizes! Sim! Repito: Verdadeiramente felizes! Sabem por quê? Porque aqueles que tentam provar sua felicidade o tempo todo não passam de frustrados, que não aprenderam com os próprios erros. Quem é verdadeiramente feliz tem o sorriso puro e o olhar inocente...

Constatei que esse olhar inocente pode ser encontrado nesses seres especiais - de fato - que vi hoje, na tela do cinema. Eles têm um brilho que a maioria das pessoas perdeu há muito tempo...
São capazes, inteligentes, belos - de verdade - e... Seres Humanos.
Eles são NORMAIS. São eles que, literalmente, fazem a diferença.

Tenho que deixar registrado aqui o quanto fiquei feliz ao esperar o início do filme, quando vi tanta gente entrando na sala do cinema!
Entre o público, algumas pessoas com deficiência física e intelectual. Um deles, um rapaz de vinte e poucos anos que interagia com o filme, torcendo pelas personagens e respondendo à altura aos "normais" da trama. Ele estava entendendo o filme. Quanto aos "normais", não sei quantos entenderam.

Está mais do que na hora de sairmos dessa "normalidade" imbecilizante que vem dominando nosso mundo há tanto tempo... Já deveríamos ter aprendido algo, com toda essa nossa "capacidade intelectual" de que nos gabamos. O mundo existe há tanto tempo e ainda agimos da mesma forma, caminhando com os mesmos passos, utilizando os mesmos artifícios para esconder nossas fraquezas. "Homo sapiens"?

Quero encerrar dizendo que acabo de voltar para casa com um sorriso no rosto.
Não é um sorriso qualquer, mas um especial, nascido da alegria de ter me sentido parte dos sonhos desses três Seres Humanos fantásticos. Por uma fração de segundo, senti-me um ser especial como eles. Será que sou digna disso?

Que vontade de voar... Que vontade de ver o mar... Que vontade de me casar com a sabedoria de quem luta desde que chegou a este mundo de "normais"...
Que vontade de ser digna de chamá-los de... COLEGAS!

Carmem Toledo
http://culturofagicamente.blogspot.com
http://facebook.com/culturofagia



Texto originalmente publicado em http://carmemtoledo.blogspot.com (08/03/2013).




Autoria

"Super Specialis" (superspecialis.blogspot.com) é de autoria de Carmem Toledo. Está proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui publicado, inclusive dos disponibilizados através de links aqui presentes. A mesma observação se estende a todos os blogs e páginas da autora ("Culturofagia", "O Caminhante Solitário", "Sophia... Ieri, Oggi, Domani", "A. B. A. C. A. T") e toda e qualquer criação, seja em forma de texto ou ilustração, por ela assinada.

Aviso:

Antes que esta página fosse criada, houve muita leitura sobre os temas abordados. Em caso de dúvidas, acesse todas as seções do blog e leia com atenção (sobretudo as guias "Sobre", "Quem somos" e "Indicações bibliográficas").

Não copie e cole o conteúdo aqui presente em qualquer outro lugar, pois ele foi escrito com muita pesquisa e dedicação. Lutar por respeito à diversidade e à inclusão também é lutar pela ética e quem se apropria do trabalho alheio não está preocupado com nada disso. Se você quiser compartilhar, copie o link para as postagens, e não seu texto.

Se você tiver alguma dúvida específica sobre seu filho, neto, sobrinho ou aluno, procure um profissional especializado que corresponda melhor à sua situação. Não use a internet para procurar ou perguntar sobre medicamentos e tratamentos, pois isso pode lhe causar um grande transtorno.