quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Dúvidas frequentes


Cegos são pessoas infelizes? É possível ter um filho "mongol"? Superdotados não precisam de ajuda para nada? Cadeirantes podem ter filhos? 

Nesta postagem, decidimos reunir algumas perguntas e mitos que já ouvimos ou lemos nas redes sociais. Talvez, você reconheça algumas delas como dúvidas que também já passaram por sua cabeça, em algum momento, mas você deixou de perguntar por vergonha, falta de oportunidade ou por achar que já sabia a resposta (calma... todos nós estamos sujeitos a isso).


NÃO PULE OS TEMAS, INDO DIRETO AO SEU INTERESSE! Como vivemos em uma sociedade na qual todos são diferentes e, mais cedo ou mais tarde, conviveremos com várias pessoas com as mais diversas características, resolvemos não separar as questões por assunto, justamente para que nossos leitores aprendam mais sobre cada um deles. Lembre-se: Se você luta por uma causa e exige inclusão e respeito à diversidade, você deve se inteirar sobre todas as condições, e não apenas sobre aquela com a qual você possui maior ligação. A vida não possui o recurso "buscar", como seu navegador.

* IMPORTANTE: Antes que esta página fosse criada, houve muita leitura sobre os temas abordados, mas, se você tiver alguma dúvida específica sobre seu filho, neto, sobrinho ou aluno, procure um PROFISSIONAL DA ÁREA que corresponda melhor à sua situação. Não use a internet para procurar ou perguntar sobre medicamentos e tratamentos.
Evite usar o "Dr. Google" em casos específicos, pois cada pessoa é única e uma resposta equivocada pode causar um grande transtorno. Se você quiser dividir essas informações com alguém, compartilhe o link, mas não o conteúdo da postagem. Agir com ÉTICA faz parte da construção de um mundo melhor para todos.



Mito: "Aquela criança é doente; tem Síndrome de Down."
Resposta: Não! Síndrome de Down não é doença! Doença é tudo aquilo que abala a saúde de uma pessoa. Uma pessoa que pegou gripe está doente, por exemplo.
Síndrome de Down é uma alteração genética que faz com que a pessoa nasça com um cromossomo 21 a mais (trissomia do 21). Esse material adicional está presente em todas células, por isso, atribui várias características específicas ao indivíduo, como olhos amendoados, baixa estatura, única prega nas palmas das mãos (prega simiesca), baixa implantação das orelhas, hipotonia muscular e deficiência intelectual. Portanto, o cromossomo a mais o constitui como ser. Isso quer dizer que a síndrome não pode ser revertida e muito menos "curada".



Mito: "Dizem que o filho da Maria é autista, mas eu acho que foi a criação que fez ele ficar daquele jeito."
Resposta: Não! Autismo é uma síndrome genética que nada tem a ver com a criação, com a educação recebida ou qualquer coisa que a mãe tenha feito ou deixado de fazer. 

Erro relacionado: "Ai... Essa criança jogada no chão, fazendo birra e gritando sem parar... Se fosse meu filho, queria ver se faria isso!"
Resposta: Se fosse seu filho, faria exatamente igual! Uma criança neurotípica (que não é autista), quando quer fazer birra, faz de tudo para chamar a atenção da mãe ou do adulto que estiver com ela. A criança autista não faz isso para atrair olhares para si. O que ela faz não é "birra", mas uma maneira incontrolável de colocar para fora uma angústia terrível de quem está recebendo muitas informações ao mesmo tempo, sem que seu cérebro consiga lidar com todas elas. Para você, um shopping, um supermercado, um terminal rodoviário são lugares comuns, porque o seu cérebro consegue separar cada dado recebido (cheiros diferentes, vozes, passos, embalagem de bala sendo aberta etc), dando atenção somente ao que importa. Para o autista, esses estímulos chegam todos ao mesmo tempo e sua atenção não consegue se concentrar em uma coisa por vez. Isso faz com que ele se sinta muito mal. Por também ter problemas de comunicação, ele não consegue expressar esse mal estar, então, acaba tendo uma crise.



Dúvida: "Por que alguns políticos e outras páginas do Facebook passaram a escrever a descrição das imagens em suas postagens se os cegos não enxergam?"
Resposta: Os deficientes visuais estudam, trabalham, têm e-mail e usam redes sociais como qualquer outra pessoa. O computador utilizado por eles é adaptado e possui um aplicativo que lê os textos em voz alta. O problema é que este não consegue "ler" imagens, gráficos e emoticons. Então, quando eles estão usando o Facebook, por exemplo, ouvem o que está escrito nas postagens das páginas seguidas por eles. Se houver uma foto ou uma programação de evento em forma de imagem, o aplicativo diz "link, foto". Com isso, os cegos acabam perdendo muitas informações importantes. Ao contrário, se o responsável pelas postagens descrever, detalhadamente, o que há na foto ou no anúncio/cartaz/folder do evento divulgado na página, os deficientes visuais estarão informados.



Mito: "Sempre que tomo o metrô para ir trabalhar, vejo vários mudinhos conversando por gestos no mesmo vagão que eu."
Resposta: Não existem pessoas mudas. O que você vê são surdos conversando pela Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Os surdos não falam porque não foram ensinados ou porque preferem usar LIBRAS.



Mito: "Cadeirantes não podem ter filhos."
Resposta: Sim, eles podem! Mesmo que a pessoa tenha perdido os movimentos, tem vida sexual e pode gerar filhos.



Mito: "Pessoas com paralisia cerebral não entendem nada, não raciocinam, não aprendem e nem sabem o que está acontecendo."
Resposta: Na maioria dos casos, pessoas com paralisia cerebral não possuem deficiência intelectual, mas apenas limitações físicas, que incluem descontrole motor e problemas na comunicação. Então, se você conhecer alguém com PC, não a ignore, tampouco fale como se ela não estivesse ouvindo e entendendo.



Mito: "Os superdotados sabem tudo, não erram nada e só tiram notas excelentes!"
Resposta: Não! Os superdotados ignoram muitas coisas, erram muito e podem tirar muitas notas baixas. O desempenho deles não é excepcional em todos os aspectos e pode haver muitos assuntos nos quais eles até possuem dificuldades.
Segundo o psicólogo e professor norte-americano Howard Gardner, há vários tipos de inteligência, que todos possuem (superdotados ou não): linguística (leitura, escrita, idiomas), lógico-matemática (cálculo, dedução), físico-cinestésica (coordenação motora fina e grossa), espacial (localização e objetos concretos), inter e intrapessoal (sociabilidade, comunicação), musical (instrumentos musicais, noções de tom, melodia, ritmo), natural (ciências, biologia) e existencial (filosofia). Geralmente, o superdotado possui altas habilidades em uma ou mais dessas áreas, mas não necessariamente em todas. Há também aqueles que podem necessitar de aceleração escolar, chegando a pular algumas séries, mas mesmo eles estão sujeitos a erros e podem tirar notas baixas por dificuldades de aprendizagem, por falta de interesse no assunto ou porque se sentem desmotivados por algum motivo. Há, inclusive, casos de repetência e abandono escolar.
Além disso, os famosos testes de Q. I. são insuficientes para avaliar a inteligência de alguém, pois privilegiam as áreas linguística e lógico-matemática, em detrimento das demais. 
De acordo com o pesquisador norte-americano Joseph Renzulli, esses testes conseguem avaliar a superdotação acadêmica, que é a mais facilmente identificada e se refere à capacidade analítica. Entretanto, segundo ele, existe também a superdotação produtivo-criativa, que engloba a expressão artística, o desenvolvimento de ideias e a investigação em torno de algo concreto. Superdotados produtivo-criativos nem sempre apresentam bom rendimento; sua produção pode ter altos e baixos. 



Mito: "Os autistas não gostam das pessoas."
Resposta: Sim, eles gostam, mas não sabem demonstrar ou o fazem de forma diferente do que esperamos. Os autistas têm dificuldades de comunicação e por conta disso não costumam ser expressivos.



Erro: "A filha da Terezinha teve um filho mongol."
Resposta: Se você ouvir uma frase parecida com esta, pergunte por que a criança nasceu tão longe, na Mongólia, pois é a única interpretação correta possível. Entretanto, provavelmente, a pessoa esteja querendo dizer que o bebê tem Síndrome de Down. A palavra "mongol" começou a ser usada pelo médico John Langdon Down no século XIX, quando este passou a perceber semelhanças físicas entre determinados pacientes com deficiência intelectual, principalmente, olhos amendoados e estatura baixa. Ele escreveu algo parecido com isso: "Um grande número de idiotas congênitos parecem típicos mongóis". Na verdade, Down concluíra, de maneira extremamente racista, que aquelas crianças haviam regredido a um estado mais "primitivo" da evolução, que era o dos mongóis. Somente na década de 60 a Mongólia conseguiu, através de uma reclamação à ONU, fazer com que esse termo fosse abolido e a trissomia do 21 passasse a ser chamada, oficialmente, de Síndrome de Down.



Mito: "Os surdos não ouvem absolutamente nada."
Resposta: Todos os surdos podem escutar alguma coisa. Boa parte deles ouve sons graves e de forte intensidade, principalmente se estiverem prestando atenção.



Mito: "Os cegos são pessoas muito infelizes."
Resposta: De forma alguma! Não enxergar jamais pode ser interpretado como a maior desgraça a acontecer a alguém. Em geral, os cegos são como quaisquer outras pessoas, têm uma vida normal e produtiva. A felicidade, assim como a falta dela, independe da pessoa ter deficiências.



Mito: "Se você não se comportar, vai ficar como aquele ali!" (apontando para uma pessoa com paralisia cerebral)
Resposta: Você está ensinando algo totalmente errado a essa criança, que crescerá ignorante, sem respeito por ninguém e sem saber conviver em sociedade. Paralisia cerebral não é castigo (deficiência nenhuma o é) e a pessoa que a tem e seus responsáveis não são obrigados a ouvir essa bobagem. Além disso, se você quer ensinar algo bom a uma criança, comece por não apontar ninguém na rua.



Mito: "Superdotados não precisam de ajuda para nada!"
Resposta: Não é verdade! Superdotados precisam de muita ajuda, apoio, orientação e acompanhamento psicológico. Eles também são beneficiados pela Lei 12.796, de 4 de abril de 2013, referente à educação especial (Lei de Diretrizes e Bases da Educação – Lei 9394/96 com modificações no Art. 58 e seguintes) e devem receber atendimento educacional especializado, tendo acesso a salas de recursos, aceleração escolar (quando necessário e dependendo de cada caso) e aulas mais adiantadas em sua(s) área(s) de interesse. Além disso, superdotados com problemas emocionais são mais comuns do que se imagina, uma vez que apresentam supersensibilidade (magoam-se e irritam-se com facilidade). 



Mito: "Crianças com deficiência intelectual atrapalham a aula na escola regular".
Resposta: Não! Elas apenas demoram mais para aprender, necessitam de atenção especial e material adaptado. Partindo-se do princípio que toda professora deve estar preparada para ficar atenta a qualquer aluno, em vários momentos e circunstâncias diferentes, a presença de uma criança com dificuldades de aprendizado não prejudica em nada o desempenho de seu filho. Caso a professora não esteja preparada, é uma ótima oportunidade para que ela desenvolva essa competência e uma experiência maravilhosa para que as demais crianças aprendam a conviver com as diferenças e, portanto, a lidar com a sociedade, que cobrará isso delas no futuro. 




Mito: "Os audiolivros e as transcrições de obras para o braille estão sujeitas à lei de direitos autorais."
Resposta: Não! Segundo o artigo 46 da Lei nº 9610/98, a reprodução de obras literárias, artísticas e científicas é livre para uso exclusivo dos deficientes visuais, desde que seja feita em braille ou em formato de audiolivro, sem fins comerciais.



Mito: "Os surdos só podem estudar em escolas especiais, para que possam acompanhar o conteúdo das aulas."
Resposta: Não! Eles têm o direito de frequentar a escola regular e não é permitido recusar sua matrícula.Todos os professores são obrigados a conhecer a Língua Brasileira de Sinais, desde 2005. Todos os cursos que formam professores e fonoaudiólogos, em nível médio e superior, oferecem esta disciplina.



Mito: "Todos os autistas são superdotados."
Resposta: Não! Existem variações de inteligência no autismo. Há autistas com deficiência intelectual severa, que não falam e não se comunicam (autismo severo), outros com deficiência intelectual leve, que apenas repetem frases, mas não conseguem se comunicar (autismo moderado) e aqueles que possuem inteligência normal ou superior e conseguem se comunicar, apesar das dificuldades de interação social (autismo leve ou Síndrome de Asperger). Quando a mesma pessoa possui o diagnóstico de autismo e é identificada como alto habilidosa/superdotada, trata-se de um caso de dupla excepcionalidade. 




Mito: "Ser ou ter um filho superdotado é sempre uma maravilha!"
Resposta: Não. Qualquer pessoa pode achar maravilhoso ser como é e quaisquer pais ou responsáveis podem ser extremamente felizes com os filhos que têm, mas há um mito em torno do superdotado, como se ele fosse somente fonte de alegrias e orgulho para a família. Como qualquer outra pessoa, este encontrará dificuldades no caminho, viverá momentos bons e ruins e terá de superar muitos obstáculos - que não são poucos para a PAH/SD (pessoa com altas habilidades/superdotação). É muito frequente que ele se sinta deslocado, diferente dos demais, até mesmo sem saber exatamente o porquê. Vários superdotados sofrem bullying (não somente de colegas, mas também de professores despreparados) e por serem mais sensíveis que a média, geralmente, carregam mágoas e traumas para a vida adulta. Isso pode se converter em fobias e transtornos que precisam ser tratados por um profissional. Muitos também têm uma maior tendência à ansiedade e à depressão. É claro que há várias exceções e existem PAH/SD que se dão extremamente bem com os colegas e nunca passaram por nada disso, mas não podemos nos esquecer de que vivemos em uma sociedade em que todo aquele que é considerado diferente é excluído e desrespeitado.



Mito: "Pessoas com deficiência não podem dirigir."
Resposta: Depende de cada caso. Para que a pessoa com deficiência possa tirar carteira de habilitação, deve procurar, no Detran de seu Estado, uma clínica credenciada autorizada a realizar os exames médico e psicotécnico especiais para pessoas com deficiência.



Mito: "Cegos só podem ir a restaurantes acompanhados ou então, precisam que o garçom leia o cardápio em voz alta."
Resposta: Depende da cidade em que a pessoa cega está. Em São Paulo, por exemplo, há uma lei (Lei 12.363/97 regulamentada pelo Decreto 36.999/97) que obriga todos os restaurantes a ter cardápios em braille. Consulte a legislação vigente em seu município.



Mito: "Vacinas causam autismo."
Resposta: Ao invés de respondermos, resolvemos pedir que o internauta leia a excelente postagem escrita por Andréa Werner Bonoli, mãe de autista e responsável pelo blog Lagarta Vira Pupa (que, inclusive, está em nossa lista de blogs recomendados, no rodapé). Qualquer resposta que déssemos aqui não seria tão boa quanto a dela. Andréa fez uma longa e cuidadosa pesquisa antes de abordar o tema e escreveu um texto bastante completo, didático e esclarecedor, que você pode ler acessando o link: http://lagartavirapupa.com.br/nao-vacinas-nao-causam-autismo/



Carmem Toledo
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Autoria

"Super Specialis" (superspecialis.blogspot.com) é de autoria de Carmem Toledo. Está proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui publicado, inclusive dos disponibilizados através de links aqui presentes. A mesma observação se estende a todos os blogs e páginas da autora ("Culturofagia", "O Caminhante Solitário", "Sophia... Ieri, Oggi, Domani", "A. B. A. C. A. T") e toda e qualquer criação, seja em forma de texto ou ilustração, por ela assinada.

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